'Desaprendi a voar, esqueci de sonhar, não tento pensar, não quero lembrar, parei de procurar, tento não escutar, feridas podem sarar, enquanto eu respirar...
De tanto correr eu perdi meu fôlego, a noite veio ao meu encontro e ainda não achei abrigo. Não sei qual foi o ponto em que me perdi, em que gaveta eu escondi, uma parte que não estava mais em mim. Nem sei o que perdi. Me desfragmentei e ainda não me recuperei. Meus dias passaram a uma busca diária de um pedaço meu que deixei pra trás; um fio de cabelo, uma gota de suor, um suspiro... acho que perdi o reflexo do sorriso. Já sujei o tênis, rasguei a calça, despedacei a blusa, me descabelei, gritei, chutei; o Seu Tempo não me deixa entrar na porta 'passado', não entende! Nem ele e nem a Dona Dor, que insiste em me apertar, eu preciso achar meu reflexo. As mandíbulas estão se desencaixando, elas foram feitas para sorrir, agora atuam no apoio de pequenos murmúrios, infindáveis gritos de socorro que brotam do músculo mestre que me mantêm viva nessa busca. Danos irreparáveis atormentam desmanchar meu mundo. Desmontam meu cenário. Arruinando o que alguém havia gostado, levando até meu príncipe encantado. Eu piso na poça, eu resbalo no limo, eu caio na rua, eu tonteio margeando um rio qualquer... correndo pra trás, voltando a fita. Na minha própria encenação, em busca do reflexo que caiu do meu sorriso sem explicação. Meu mundo vai caindo, eu voltando e o presente escapando de minhas mãos. Que loucura, parece um clipe ou um filme que não faz sentido nenhum assistir. Eu não seria público se minha vida estivesse em cartaz, com título ridículo ' em busca do reflexo perdido'. Passando por todas as lembranças, vasculho cada pedacinho, sem deixar nenhum despercebido. Encontrei dias felizes de verão, minhas amigas guardando meu reflexo com seus belos sorrisos; vi também aulas engraçadas; bagunças de noite. Descobri o quando eu usava o grande reflexo de alegria que era meu sorriso, mesmo sendo uma criança boba, encantada por simples bonecas. Passaram por mim alguns sonhos também, nunca percebi que até neles usava meu reflexo fujão. Agora é escuro, uma névoa embaçando minha visão, os sons distantes me sugam restos de felicidade, faz frio e minha barriga dói. É como se as borboletas que viviam aqui dentro fossem exterminadas. Eu me vejo ali sorrindo, atravessando, querendo apenas aparentar, ele vai derretendo a medida que meu peito vai estremecendo, no momento em que o próprio ar é tóxico para mim, me vejo explodindo em cacos, olhando de baixo para alguém, no chão caída dilacerada, e lá se vai meu sorriso com quem me trincou. Queimando, odiando, lamentando, sendo puxada contrariamente para a superfície. Agora sei onde meu sorriso andava, atravessei mares, céus e infernos para deixar ele ser roubado... me enganei ao achar que procurava, olhando pra todo lado, meu sorriso nunca se perdeu ele foi levado.
...tentando voltar, temendo acordar, eu volto a me afundar.'
BC
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